Uma nova espécie de fungo, Paracoccidioides lutzii, foi identificada como agente causador da Paracoccidioidomicose (PCM), uma doença fúngica sistêmica que afeta principalmente trabalhadores rurais, garimpeiros e profissionais que lidam com o solo. A descoberta aconteceu durante pesquisas no Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM-UFMT), onde foram analisados isolados clínicos de pacientes atendidos no serviço de referência para doenças infecto-parasitárias.
O P. lutzii é encontrado no solo e pode ser inalado ao remexer a terra, atingindo os pulmões e causando complicações crônicas como fibrose pulmonar, lesões na mucosa oral e nasal, além de manifestações na pele, ossos e, em casos mais raros, na mucosa ocular. O nome da nova espécie homenageia o cientista Adolfo Lutz, pioneiro no estudo da doença há mais de um século.
A descoberta foi resultado de uma colaboração entre pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat). O estudo integra o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UFMT.
Pesquisa e impacto na saúde pública
Coordenando o estudo, a professora doutora Rosane Hahn, que pesquisa a PCM há quase três décadas, destaca que a doença não tem cura, mas pode ser controlada com tratamento adequado. O Hospital Universitário Júlio Müller é a principal unidade de referência para acompanhamento dos casos em Mato Grosso.
A pesquisadora lidera um projeto em parceria com a Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (SEAF-MT) para realizar sorologia em agricultores familiares de nove municípios da Baixada Cuiabana. A iniciativa busca identificar fatores epidemiológicos em Cuiabá, Várzea Grande, Chapada dos Guimarães, Santo Antônio do Leverger, Nossa Senhora do Livramento, Acorizal, Jangada, Barão de Melgaço e Poconé.
Dados apontam que a PCM afeta mais homens do que mulheres, com uma proporção de 14 para 1. Estudos indicam que o hormônio estrogênio tem efeito protetor, reduzindo os casos femininos antes da puberdade e após a menopausa.
Avanços na pesquisa e produção de antígenos
O Ministério da Saúde está investindo R$ 1,5 milhão para o desenvolvimento de um antígeno diagnóstico que contemple todas as espécies do complexo Paracoccidioides brasiliensis e a recém-descoberta P. lutzii. O projeto envolve uma equipe multidisciplinar com pesquisadores da USP, FIOCRUZ-RJ, UNIFESP, UNESP, Instituto Adolfo Lutz (IAL-SP) e UFMT, com previsão de conclusão até o final de 2025.
Atualmente, a sorologia para PCM é realizada manualmente apenas no Laboratório de Micologia da Faculdade de Medicina da UFMT, o que reforça a necessidade de novos avanços para ampliar a capacidade diagnóstica no país.
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