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Nesta semana, entre os dias 9 e 13 de março, cerca de 1.400 professores da rede municipal de ensino de Cuiabá participam de uma formação voltada à implantação do projeto pedagógico “O Mundo do Theo”, iniciativa que busca fortalecer práticas de educação inclusiva e ampliar o acolhimento a estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
O encontro ocorre no Hotel Fazenda Mato Grosso e reúne educadores da Educação Infantil ao 5º ano do Ensino Fundamental, representando 118 escolas municipais. Ao longo da programação, os professores participam de palestras, debates e atividades práticas voltadas ao desenvolvimento de metodologias inclusivas para aplicação em sala de aula.
A abertura da formação contou com a palestra da psicóloga infantil e infantojuvenil Juliana Bonfim, especialista em transtornos do neurodesenvolvimento, que apresentou orientações sobre manejo comportamental de estudantes autistas. Em seguida, a professora e mestre Fabiana Cáceres, coordenadora do programa de formação continuada do projeto, abordou estratégias pedagógicas específicas para o trabalho com alunos com TEA.
Segundo a coordenadora técnica de Formação e Currículo da Secretaria Municipal de Educação, Gabriela Caloi Lóss, a capacitação representa uma mudança importante no foco das formações oferecidas pela rede municipal.
“Essa formação foi pensada especialmente para o professor regente, que é quem passa a maior parte do tempo com a criança em sala de aula. Antes, as capacitações eram mais direcionadas ao professor da sala de recursos. Agora queremos que o docente que está no dia a dia da turma compreenda melhor as neurodivergências e tenha estratégias práticas para atuar”, explicou.
De acordo com a Secretaria Municipal de Educação, 2.266 estudantes com TEA estão atualmente matriculados na rede municipal, distribuídos em 171 unidades escolares. Diante desse cenário, ampliar o preparo dos educadores tornou-se uma prioridade.
“Temos percebido que muitas das dificuldades relatadas pelos professores estão relacionadas à falta de formação específica para lidar com transtornos como autismo, dislexia, disgrafia, TDAH e síndrome de Down. O projeto Mundo do Theo vem justamente para oferecer ferramentas que apoiem o professor, o estudante e também a família”, destacou Gabriela.
Estratégias para o cotidiano escolar
Durante a formação, os professores recebem orientações práticas para lidar com situações comuns do cotidiano escolar, como a identificação de sinais que antecedem crises comportamentais.
Segundo a psicóloga Juliana Bonfim, compreender esses comportamentos é essencial para garantir um ambiente de aprendizado mais equilibrado.
“Quando o professor entende como prevenir ou acessar a criança em momentos críticos, ele consegue aplicar as ferramentas pedagógicas necessárias para que o estudante se sinta motivado a aprender e se desenvolver”, afirmou.
Ela explica que crianças com transtornos do neurodesenvolvimento podem apresentar mais dificuldades para seguir instruções ou desenvolver habilidades sociais, o que exige atenção e estratégias específicas por parte dos educadores.
“A inclusão é um direito e uma necessidade social. Quando entendemos as características do autismo, nos tornamos mais preparados para adaptar o ambiente e acolher essas crianças”, disse.
Além da capacitação presencial, o projeto “O Mundo do Theo” também disponibilizará uma plataforma online com trilhas formativas, materiais pedagógicos e sequências didáticas, permitindo que os professores tenham apoio contínuo para aplicação das estratégias em sala de aula.
Para a professora Fabiana Cáceres, um dos principais desafios enfrentados pelos docentes está justamente na falta de preparo específico durante a formação universitária.
“Muitos professores chegam à sala de aula preparados para ensinar conteúdos pedagógicos, mas não sabem como ensinar uma criança que precisa de um atendimento especializado. Nosso objetivo é pegar esse professor pela mão e mostrar caminhos possíveis para promover um ambiente inclusivo”, afirmou.
O projeto também inclui o “Livro da Família”, material que será entregue aos responsáveis pelos estudantes. A publicação apresenta a história de Theo, um menino com autismo, e busca ampliar a compreensão sobre o tema dentro da comunidade escolar.
“A inclusão não acontece apenas dentro da escola. Ela precisa acontecer na sociedade. Quando trabalhamos com professores, alunos e famílias, estamos construindo uma comunidade mais acolhedora”, ressaltou Fabiana.
Experiências em sala de aula
Para os educadores que participam da formação, a capacitação representa uma oportunidade de aprimorar conhecimentos e encontrar soluções para desafios reais do dia a dia escolar.
A professora Daniele Machado, que leciona no terceiro ano da EMEB Tenente Octacilio Sebastião da Cruz, contou que decidiu participar do encontro diante do aumento de alunos com diagnósticos diversos nas turmas.
“Hoje tenho um aluno com autismo, TDAH e transtorno opositor desafiador. A palestra trouxe várias ideias que pretendo aplicar em sala para melhorar o desenvolvimento dele”, relatou.
Já o professor de artes William de Campos, da Escola Nossa Senhora Aparecida, destacou a importância do acesso a novos recursos pedagógicos.
“Estamos sempre tentando desenvolver um trabalho mais assertivo com esses alunos. A apresentação da plataforma e dos materiais foi muito interessante e pode ajudar bastante no nosso dia a dia”, avaliou.
A professora Janil Dias Costa, da EMEB Vereador Paulo Borges, também ressaltou que a formação aumenta a segurança dos professores diante das situações desafiadoras em sala.
“Com uma capacitação como esta, sentimos que temos mais condições de enfrentar as dificuldades. O autismo sempre existiu, mas hoje estamos discutindo mais o tema e buscando conhecimento para trabalhar melhor com essas crianças”, afirmou.
Parceria com as famílias
Outro ponto enfatizado durante a formação foi a importância do diálogo entre escola e família no processo de inclusão.
Para a coordenadora pedagógica Fernanda Cordeiro da Silva, do CMEI Antonio Marcos Ruzzene, o acolhimento começa desde o momento em que a família apresenta o diagnóstico do estudante.
“Muitas famílias chegam angustiadas ou sem saber como lidar com a situação. A escola precisa ser esse espaço de acolhimento. Trabalhamos em conjunto com os pais, com os profissionais de apoio e com toda a comunidade escolar para fortalecer o desenvolvimento da criança”, explicou.
Atualmente, a rede municipal conta com 78 escolas equipadas com Salas de Recursos Multifuncionais, destinadas ao Atendimento Educacional Especializado (AEE). As demais unidades estão em processo de implantação desses espaços.
Além disso, iniciativas como o Centro AMAR e projetos pedagógicos voltados à inclusão reforçam o compromisso da gestão municipal com a educação de estudantes neurodivergentes.
Para os professores envolvidos na formação, o projeto “O Mundo do Theo” representa mais do que uma capacitação técnica: é um passo importante na construção de uma escola mais humana e acolhedora.
Como resume a professora Michele Maria, da EMEB Tereza Benguela:
“Quando falamos de inclusão, não estamos falando de um aluno ‘especial’ em uma turma. Estamos falando de uma turma inteira que aprende junta. São 28 alunos, todos parte do mesmo processo de aprendizagem”.
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