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Arquiteto de Cuiabá conquista patente inédita em inovação arquitetônica

Arquiteto de Cuiabá conquista patente inédita em inovação arquitetônica

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Nesta quinta-feira (11), o arquiteto e urbanista José Afonso Botura Portocarrero, atual secretário municipal de Planejamento e Desenvolvimento Urbano de Cuiabá, recebeu oficialmente a patente do protótipo Tecnoíndia pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). A conquista representa um marco histórico tanto para sua trajetória quanto para a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que agora soma 14 patentes, sendo esta a primeira da área de arquitetura.

A Carta Patente foi assinada no dia 2 deste mês pelo diretor de Patentes do INPI, Alexandre Dantas Rodrigues. Para Portocarrero, o reconhecimento simboliza a valorização de um trabalho de décadas que une tradição e modernidade. “Mais do que um registro legal, trata-se do reconhecimento de uma ideia que atravessa o tempo”, ressaltou o arquiteto.

Uma ideia original que conecta passado e futuro

A patente, aguardada há oito anos, nasceu de uma pesquisa que buscou transformar o desenho tradicional das habitações indígenas brasileiras em um sistema construtivo industrializável. O Módulo Tecnoíndia parte do princípio de que a arquitetura indígena não é apenas cultural, mas também tecnológica — uma tecnologia ancestral que permanece atual e funcional.

O objetivo foi permitir que formas antes construídas artesanalmente fossem reproduzidas com precisão, rapidez e eficiência. Com auxílio de ferramentas modernas, o desenho curvo é cortado por máquinas computadorizadas, com furos posicionados milimetricamente, eliminando erros e agilizando a montagem.

Da aldeia à indústria: um salto inédito

O protótipo permite que um desenho típico das aldeias brasileiras seja incorporado ao modelo produtivo contemporâneo. A inovação torna possível aplicar essa tecnologia em habitações indígenas, pequenas escolas, postos de saúde e moradias de interesse social — uma alternativa culturalmente adequada ao padrão tradicional imposto por programas como o Minha Casa Minha Vida.

O projeto contou com apoio do Cipem, além de referências que influenciaram a pesquisa, como o Memorial Rondon (Mimoso–MT), a sede da Adufmat e o Núcleo Tecnoíndia, o Sebrae de Sustentabilidade e a escola do Sesc Pantanal, em Poconé.

Engenharia de precisão e uma trajetória de 28 anos de estudos

Portocarrero iniciou seus estudos sobre habitação indígena em 1997, no mestrado da UFMT, e aprofundou o tema no doutorado na USP. A jornada incluiu pesquisas no Brasil e no exterior, entre elas um estágio na ETH Zürich, na Suíça.

O primeiro protótipo nasceu no Laboratório de Estruturas da Engenharia Civil da UFMT, com apoio dos engenheiros Manuel Santini Rodrigues Junior, Alberto Rodrigues Dalmaso e das estudantes Victória Praeiro Macieski e Murythely de Melo Toigo. Submetido a testes rigorosos, o modelo resistiu a uma tonelada de carga. Uma segunda versão, mais robusta e com quatro arcos, foi apresentada em Curitiba e depois na Bienal Internacional de São Paulo.

Em 2018, o pedido de patente foi oficializado pelo INPI. Agora, com a concessão, o projeto se torna um marco para o Departamento de Arquitetura da UFMT — considerado por Portocarrero como um feito raro no cenário nacional.

“O protótipo é uma ponte entre mundos”, define o arquiteto.
Segundo ele, a patente também cumpre um papel político e científico ao afirmar que tecnologias indígenas são tecnologias brasileiras, e devem ocupar espaço no futuro da arquitetura e da engenharia.

Montagem simples e eficiente

O sistema é composto por uma única peça modular, que, ao ser justaposta, forma o pórtico ogival tradicional das habitações indígenas.
As ligações são feitas com parafusos, e a estrutura se repete a cada 1,25 metro, sustentando toda a cobertura. A montagem e desmontagem são rápidas, o que torna o modelo ideal também para situações emergenciais.

Assim como as moradias indígenas, o desenho é simples, sofisticado e funcional, reafirmando o encontro entre o conhecimento tradicional e a engenharia contemporânea.

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