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Neste ano (2025), volta ao debate político uma questão que atravessa décadas: por que alta aprovação local não se converte, automaticamente, em tração nacional. A eleição em 2026 para a Presidência da República se aproxima e atores políticos chamam atenção por não ter uma narrativa que o façam tracionar nas pesquisas eleitorais.
O caso do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, é emblemático. Reiteradamente citado entre os gestores estaduais mais bem avaliados do país, ele ainda não conseguiu ocupar o centro simbólico da disputa presidencial, mesmo em um cenário político completamente diferente daquele vivido no passado.
A resposta passa por um ponto essencial: aprovação não é poder nacional. Governar bem um Estado gera reconhecimento local, mas presidência não se vence com nota técnica. Disputa-se com símbolos, narrativas e leitura de época. O eleitor presidencial não escolhe apenas um gestor eficiente; escolhe um personagem que represente um ciclo histórico.
Caiado construiu sua trajetória recente falando como administrador. O eleitor, porém, escuta como espectador de uma disputa simbólica. Enquanto ele entrega resultados, outros atores políticos disputam emoções, conflitos e sentidos históricos.
Esse descompasso ficou claro ainda em 1989. No primeiro debate presidencial pós-ditadura, Lula olhou para Caiado e afirmou: “Quando você chegar a 1,5% nas pesquisas, eu faço uma pergunta para você”. Mais do que um deboche, foi uma estratégia política cirúrgica. Lula não atacou Caiado; simplesmente o retirou do jogo simbólico.
A mensagem daquele episódio permanece atual:
- Quem não aparece nas pesquisas não existe;
- Quem não existe não vira antagonista;
- Quem não vira antagonista não cresce.
Décadas depois, o padrão se repete, mesmo com um país mais polarizado. Caiado segue respeitado, eficiente e bem avaliado em Goiás, mas ainda não ocupa o imaginário nacional. Enquanto ele governa, outros constroem histórias que prendem a atenção emocional do eleitorado brasileiro.
Hoje, Lula representa o sistema consolidado, a política conhecida, o passado que insiste em permanecer. Caiado poderia simbolizar a ordem, a autoridade e o encerramento desse ciclo, mas isso só acontece quando vira narrativa reconhecível, não apenas discurso técnico.
O cérebro político do eleitor não decide por dados, mas por marcos históricos. Primeiro vem a emoção; depois, a razão justifica. Sem conflito claro, não há sensação de urgência. E sem urgência, não há virada nacional.
Caiado ainda não transformou o episódio de 1989 em símbolo fundador. Ele segue falando como técnico em um jogo dominado por personagens. Lula, ao longo da história, sempre converteu desprezo em identidade, ataque em combustível e rejeição em mito.
A disputa presidencial não se vence provando que o outro errou, mas fazendo o eleitor sentir que um ciclo se encerrou. Se Ronaldo Caiado conseguir construir uma narrativa clara de antagonismo e se apresentar como símbolo de um novo tempo, ele muda de patamar. Caso contrário, seguirá como um bom gestor que administra bem — e perde o jogo grande.
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