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Nesta segunda-feira (03), pesquisadores de Mato Grosso divulgaram avanços importantes no estudo da Psychotria ipecacuanha, popularmente conhecida como poaia ou ipeca, tradicionalmente utilizada há mais de 300 anos na medicina popular por suas propriedades eméticas e antiparasitárias. O objetivo é explorar suas capacidades farmacológicas para o desenvolvimento de novas terapias contra doenças cardiovasculares.
As doenças relacionadas à coagulação sanguínea estão entre as que mais matam no mundo. Quando o processo de hemostasia é alterado, podem ocorrer tromboses e complicações graves, exigindo tratamentos contínuos que muitas vezes são caros e provocam efeitos colaterais.
É nesse cenário que o projeto coordenado pela professora doutora Celice Alexandre Silva (Unemat), em parceria com os pesquisadores Douglas Siqueira Chaves e Flavia Fratani (UFRRJ), avalia o potencial anticoagulante e antiplaquetário do extrato da planta. O estudo é financiado pela Fapemat, por meio do Edital nº 018/2022-Biológicas.
Pesquisas anteriores já identificaram na poaia dois alcaloides de destaque: emetina e cefalina, compostos que apresentam efeitos citotóxicos, antiparasitários e expectorantes. Agora, os resultados apontam que essas substâncias também podem reduzir a formação de coágulos de forma dose-dependente, especialmente na via intrínseca da coagulação.
O trabalho envolve o fracionamento do extrato, para descobrir se o efeito terapêutico vem de uma molécula específica ou de uma ação combinada entre os compostos naturais. A expectativa é que o estudo culmine no desenvolvimento de um novo fitoterápico brasileiro, com formulações a serem testadas in vivo nos próximos passos da pesquisa.
A investigação reforça ainda o valor da biodiversidade brasileira como fonte de inovação — a mesma família da poaia, a Rubiaceae, inclui espécies já consagradas na área medicinal, como a quina (Cinchona officinalis), usada na produção de antimaláricos.
Riscos e conservação
Apesar do grande potencial terapêutico, o uso da poaia exige cuidado. A emetina pode ser tóxica em doses elevadas, provocando náuseas, arritmias cardíacas e insuficiência respiratória. Além disso, a planta figura como ameaçada de extinção em algumas regiões do Brasil, o que restringe sua coleta direto da natureza.
Por isso, os pesquisadores reforçam que o consumo sem orientação médica é desaconselhado, e que os avanços científicos devem priorizar o uso sustentável e regulamentado da espécie.
A poaia segue, assim, como uma das promissoras fontes naturais para a descoberta de novos medicamentos voltados à saúde cardiovascular e ao fortalecimento da pesquisa nacional em fitoterápicos.
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