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Neste domingo (8), data em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher, histórias de personagens femininas que ajudaram a construir a identidade cultural, social e política de Cuiabá ganham destaque como forma de reconhecimento e valorização de suas contribuições ao longo das décadas.
Ao longo da história, mulheres enfrentaram preconceitos, romperam barreiras e deixaram legados importantes em diferentes áreas, como cultura, educação, política, religião, gastronomia e memória popular. Muitas dessas trajetórias, por vezes pouco conhecidas, ajudam a compreender a formação da sociedade cuiabana e continuam inspirando novas gerações.
Entre esses nomes está Maria da Glória Cunha, conhecida popularmente como Maria Taquara. Lavadeira e empregada doméstica que viveu em Cuiabá na primeira metade do século XX, ela ficou marcada na memória popular por sua presença constante nas ruas da cidade. Alta, magra e frequentemente descalça, caminhava carregando seus pertences em uma trouxa e morava de forma simples nas proximidades do atual Quartel do 44. Sua história inspirou inclusive uma música do compositor Moisés Martins, tornando-se símbolo poético das mulheres invisibilizadas da sociedade.
Outra figura de destaque foi Dunga Rodrigues, nascida em 1908 em Cuiabá, que se destacou como pianista, professora e escritora. Formada em instituições tradicionais da cidade, como o Liceu Cuiabano, dedicou a vida ao ensino da música e à formação cultural da capital. Também publicou obras sobre lendas e tradições de Mato Grosso, o que lhe garantiu uma cadeira na Academia Mato-grossense de Letras. Ela faleceu em 2002, deixando forte contribuição para a preservação da cultura regional.
A educadora Maria Dimpina Lobo Duarte, nascida em 1891, também entrou para a história ao se tornar a primeira mulher aluna do Liceu Cuiabano e a primeira a se formar em Ciências e Letras na instituição. Posteriormente tornou-se a primeira mulher funcionária pública de Mato Grosso. Educadora e líder social, fundou o Colégio São Luís e participou ativamente da vida cultural da cidade, sendo também fundadora do Grêmio Literário Júlia Lopes e diretora da revista A Violeta.
Outra pioneira foi Ana Maria do Couto, conhecida como May, nascida em 1925. Professora de Educação Física, esportista e líder política, ela entrou para a história ao se tornar a primeira mulher presidente da Câmara Municipal de Cuiabá, em 1965. May também se destacou nacionalmente ao assumir, em 1971, a presidência do clube de futebol Dom Bosco, sendo a primeira mulher no Brasil a comandar um clube profissional.
Na área educacional e cultural, Maria de Arruda Müller também deixou um legado marcante. Nascida em 1898, foi professora, poetisa e ativista social, dedicando quase toda a vida ao ensino — iniciou a carreira aos 16 anos e só se afastou das salas de aula aos 96. Em 1930, tornou-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Mato-grossense de Letras. Também fundou a revista feminina A Violeta e atuou em projetos de assistência social voltados a crianças e idosos.
A participação feminina na política também ganhou força com Estevina do Couto Abalém, que entrou para a história como a primeira mulher eleita vereadora em Cuiabá, em 1951. Durante sua trajetória, ocupou funções importantes na Câmara Municipal, como secretária da Mesa Diretora e vice-presidente, abrindo espaço para a participação feminina na política local.
No campo religioso, um nome de destaque é Nilda Paula de Souza, nascida em 1929 em Uberaba (MG). Ela chegou a Cuiabá em 1974 ao lado do marido, o pastor Sebastião Rodrigues de Souza, e tornou-se referência na Igreja Assembleia de Deus em Mato Grosso, contribuindo para a formação de lideranças religiosas e comunitárias. Nilda também é avó do atual prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini.
Na gastronomia, a tradição cuiabana também tem nome feminino. Dona Eulália, nascida em 1934 na comunidade de Aricazinho, ficou conhecida pela produção do tradicional bolo de arroz, uma das iguarias mais emblemáticas da culinária regional. O sucesso da receita, inicialmente vendida de porta em porta, transformou-se em referência gastronômica e patrimônio cultural da cidade.
Outra figura ligada à história política de Mato Grosso foi Maria Benedita de Oliveira, mãe do ex-governador Dante de Oliveira, líder do movimento nacional Diretas Já. Sua trajetória ficou marcada pela formação de valores que influenciaram a carreira pública do filho.
A memória afetiva de Cuiabá também guarda com carinho a figura de Lenyr Clara Paes, conhecida como Preta. Nascida em Poconé, ela se tornou conhecida como “a eterna menina das praças”, presença constante em locais como a Praça Ipiranga e o Jardim Alencastro, onde convivia com crianças e moradores da cidade.
Além dessas personagens, a história cuiabana também registra nomes como Alzira Valadares, Elza Arauz Coani, Carmelita da Silva Couto, Adiles Ramos Tocantins, Dona Pequenina, Adalgisa Gomes de Barros, Neuza Ribeiro Monteiro da Silva, Francisca Almeida Constantino, Adelina Ponce de Arruda, Hermínia Torquato da Silva, Anna da Costa Pinheiro, Maria Adelina de Amorim e Maria Nazareth Hahn, vereadora que permaneceu 26 anos consecutivos no legislativo municipal.
Para a secretária municipal da Mulher, tenente-coronel Hadassah Suzannah, reconhecer essas trajetórias é fundamental para valorizar a história da cidade e o papel das mulheres na sociedade. Segundo ela, os legados de luta, trabalho e dedicação dessas personagens ajudaram a construir Cuiabá e seguem inspirando as políticas públicas voltadas às mulheres.
A pesquisa contou com colaboração do memorialista e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, além de coordenador do Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (Misc), Francisco das Chagas Rocha.
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